[RESENHA] Robyn – Body Talk

2 dez

Robyn não é uma popstar convencional. Depois de seis anos parada, lançando apenas um ou dois brilhantes singles no caminho, no começo do ano a cantora revela sua meta para 2010: lançar três álbuns, que juntos iriam compor um projeto chamado Body Talk. Um método não muito comum, convenhamos, mas a cantora parece simplesmente não ligar. Ela quis fazer seu disco do seu jeito, lançá-lo no seu próprio selo e liberá-lo da sua maneira, e a conseqüência de tudo isso é o melhor projeto pop do ano.

Aguardar o processo do lançamento dos três álbuns seria algo simples, caso nunca tivéssemos ouvido nada da Robyn antes, porém ele conta com um impecável antecessor, o Robyn, divisor da carreira da cantora, e aí, as expectativas são inevitáveis. Desde as primeiras entrevistas, algo já estava definido: Robyn iria tomar um caminho mais disco-friendly, com os grandes clubes europeus tomados como influência, e com as músicas “Konichiwa Bitches”, uma de suas canções mais cruas e energéticas, e “With Every Heartbeat”, seu clássico-pop, como ponto de partida . Nada mal até então, mas não devemos esquecer que não temos nenhuma canção no Robyn que funcione bem em uma pista de dança. Na verdade, canções como “Be Mine” e “Bum Like You” soam extremamente orgânicas, e mesmo com alguns samples no meio, as músicas eram melhores se ouvidas em qualquer lugar fora dos clubes. A peocupação tomou conta, então, em como Robyn adicionaria o seu próprio toque em canções feitas primeiramente para um ambiente considerado o templo hedonista moderno de bebidas, drogas e sexo, mas como ela mesmo diz em “Include Me Out”, sua receita “é muito fácil, sendo apenas um simples pulso repetido num intervalo regular”. Porém, assim como a “fórmula” da Coca-Cola é extremamente simples na teoria, na prática, Robyn consegue fazer canções extremamente complexas, que te obrigam a dançar, mas ao mesmo tempo sentir as batidas e suas emoções. No final, Robyn não fez apenas ótimas músicas para dançar, mas sim ótimas músicas.

A música que inicia o projeto todo é “Don’t Fucking Tell Me What To Do”, a perfeita carta de apresentação à Robyn e sua pessoa, onde a cantora libera todos os seus demônios e os extermina um por um. O que se segue na primeira parte, na verdade, é um disco bem variado, com canções mais darks (“None of Dem”), um pseudo-reggae (“Dancehall Queen”), e o brilhante primeiro single, e um dos pilares do projeto, “Dancing On My Own”, uma continuação do emotronic já apresentado pela cantora em “With Every Heartbeat”, que já emerge como uma das melhores músicas do projeto. O maior destaque, entretanto, fica com a brilhante, e melhor música de todos os Body Talk, “Cry When You Get Older”. Com uma voz de robô e um gigantesco coração de metal, Robyn fala sobre o cotidiano, sobre sua infância, sobre o tédio, sobre o amor, e acima de tudo, sobre nossa juventude-internet, retratando os momentos mais banais, mas mais deliciosos, da nossa geração. Passado o primeiro impacto, eis que surge a segunda parte, com canções mais consistentes, que faziam jus à ideia do projeto, com sonoridade mais parecida e de fato dançante, mas sem nenhuma grande canção dessa vez, mas o que não fez dele um álbum ruim. Foi como se Robyn tivesse guardado as melhores faixas para sua terceira parte, que chegou com a explosiva “Indestructible”, na minha opinião o melhor dos três singles, justamente pela sua mistura de eletrônico com os deliciosos violinos de sua versão acústica. Após a faixa, o que se segue são as quatro (das seis) melhores canções do projeto, um combo difícil de se bater. “Time Machine” é uma das melhores canções de Robyn de todos os tempos, e produzida pelo gênio Max Martin, conta com a cantora no volante de um Delorean a 200 km por hora, implorando pra voltar no tempo para mudar “aquele pequeno detalhe” que faria toda a diferença; “Call Your Girlfriend”, com Robyn assumindo o papel da “outra”, é uma espécie de continuação da trilogia dos três singles, e conta com um sublime middle-8, que vai te fazer derreter só de ouvir; “Get Myself Together”, que lembra a brilhante “Cry When You Get Older”, com uma melodia e um refrão difícil de esquecer; e para fechar com chave de ouro, “Stars4Ever”, com seu refrão duplo praticamente infectante, uma aula na verdade de como se fazer uma canção pop e chiclete, porém de qualidade.

robyn

Porém no final, o “Body Talk”, álbum único, contém algumas falhas. A primeira e principal delas sendo a omissão de “Cry When You Get Older”, a canção que definiu o projeto e mostra porquê a Robyn é diferente das outras popstars. A segunda sendo a escolha bem estranha da ordem das músicas, com “Don’t Fucking Tell Me What To Do”, a música que serve principalmente para abrir o disco, colocada logo após a energética “Fembot”, e “We Dance To The Beat”, uma canção bem chatinha, colocada perdida no disco e logo após a não-tão-excitante “None of Dem”. Minha terceira reclamação, na verdade, é com o projeto em si, visto que os três álbuns conseguem ser perfeitamente distintos um dos outros, cada um com sua própria sonoridade, e ao meu ver, devem ser ouvidos na íntegra e na ordem de lançamento. Mas na verdade, não importa como você ouça o disco. Robyn conseguiu, mais uma vez, algo difícil de se ver por aí. Ela acabou com meus dois principais medos, o primeiro sendo sua capacidade de lançar três sólidos discos num mesmo ano, e o segundo, talvez mais importante, foi sua capacidade de incorporar sua própria (e forte, e importante, e RELEVANTE) personalidade, num gênero que basicamente peca na falta de afeto ou calor humano.

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9,0 – Ótimo

Robyn - Body Talk [Konichiwa Records; 2010]
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9 Respostas to “[RESENHA] Robyn – Body Talk”

  1. Guilherme 02/12/2010 às 8:38 PM #

    middle-8 é o que o pessoal chama de m8? se for, o que é middle-8? rsrs

    a propósito, ótima resenha, bem dissecada mesmo. parabéns luis
    Freshhhh

    • Luis 02/12/2010 às 8:50 PM #

      middle 8 eh o break, ou o pedacinho logo após o segundo refrão, que geralmente dá um “up” ou acrescenta um verso novo à música (ou também conhecido como o segundo lugar preferido onde as cantoras pops enfiam rappers [!!!!])

  2. Gabriel Nunes 02/12/2010 às 9:37 PM #

    Concordo fortemente sobre Time Machine, muito foda a música!

  3. Marcos Xotoko 02/12/2010 às 10:20 PM #

    Amei essa resenha! Nossa, concordo com tudo, só não leva 10 pelo tracklist do último album! 🙂

    • Luis 02/12/2010 às 11:37 PM #

      olha, eu dei o 9 considerando os 3 discos separados, pq se fosse considerar o disco body talk, SEM CRY WHEN YOU GET OLDER, acho que daria um 8 e poco, pela tracklist ridicula e ausencia da melhor musica do projeto.

  4. Leo Marchetti 03/12/2010 às 5:07 PM #

    Muito boa a resenha. Acredito que é a percepção da maioria aqui, né?!
    Curti!

  5. celloiof 03/12/2010 às 11:45 PM #

    Luiz, seu post me convenceu a ouvir o BT, parte por parte ainda! Espero que seja tão bom quanto andam falando

  6. Alexandre Leal 24/07/2011 às 5:37 PM #

    Só descobri esse album maravilhoso agora! Fui procurar resenhas (obsessivamente) e vc está de parabens! Otimo texto!

    Concordo plenamente sobre a tracklist do último disco!
    Ainda bem que pudemos ouvir os três separadamente, realmente faz tudo mais gostoso!

Trackbacks/Pingbacks

  1. [VIDEO] Robyn – MySpace Secret Show @ London | Oh My Rock - 05/12/2010

    […] da extensa resenha que fiz sobre a era Body Talk e a persona Robyn (corre aqui se ainda não leu!), disponibilizo aqui para download o show “secreto” completo que a cantora fez em […]

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